No cenário atual da odontologia, a implantodontia se destaca como uma das áreas mais promissoras e eficazes para a reabilitação oral. Com o aumento da demanda por soluções que ofereçam estética, função e durabilidade, torna-se imprescindível que o implantodontista domine as diferentes opções de implantes disponíveis no mercado. A escolha do tipo de implante adequado para cada caso clínico é um fator determinante para o sucesso do tratamento, influenciando diretamente na osseointegração, no resultado final da prótese e na satisfação do paciente.

Este artigo tem como objetivo fornecer um guia completo e atualizado sobre os diversos tipos de implantes, suas características e indicações, com o intuito de auxiliar o implantodontista na tomada de decisões mais assertivas e adequada. Abordaremos desde os materiais de fabricação até os diferentes tipos de conexão e design, sempre com foco na aplicabilidade prática e técnica e nas evidências científicas que sustentam cada escolha.

1. Materiais de Fabricação: Titânio e Zircônia

O titânio é, sem dúvida, o material mais utilizado na fabricação de implantes dentários devido à sua biocompatibilidade, resistência à corrosão e capacidade de osseointegração. A osseointegração é um processo biológico no qual o osso se une diretamente à superfície do implante, promovendo uma fixação estável e duradoura.

  • Titânio: Implantes de titânio apresentam um histórico de sucesso comprovado, com taxas de sobrevivência elevadas após 10 anos em função. Almeida et al, 2013 No entanto, a busca por materiais que ofereçam ainda mais estética levou ao desenvolvimento de implantes de zircônia.
  • Zircônia: A zircônia é um material cerâmico que se destaca pela sua cor branca, o que a torna uma excelente opção para áreas estéticas, como a região anterior da maxila. Além disso, a zircônia apresenta uma baixa afinidade por placa bacteriana, o que pode contribuir para a saúde dos tecidos peri-implantares.

Exemplo Prático: Em um caso de substituição de um incisivo central superior, a escolha de um implante de zircônia pode ser mais vantajosa para evitar o risco de escurecimento da gengiva, que pode ocorrer com implantes de titânio em pacientes com biotipo gengival fino.

2. Tipos de Implante: Hexágono Externo, Hexágono Interno e Cone Morse

O tipo de implante e o abutment (componente que conecta o implante à prótese) é uma escolha de aspecto crucial para a estabilidade e longevidade da reabilitação. Existem diferentes tipos de implantes, cada um com suas vantagens e desvantagens.

  • Hexágono Externo (He): Foi um dos primeiros tipos de implante a serem desenvolvidos e ainda é amplamente utilizado por sistemas de implantes. No entanto, apresenta uma maior incidência de complicações mecânicas, como o afrouxamento e/ou fratura do parafuso do abutment. Almeida et al, 2013
  • Hexágono Interno (HI): Oferece uma melhor distribuição das forças e uma maior resistência à fadiga em comparação com o hexágono externo. Almeida et al, 2013 A carga é distribuída mais profundamente dentro do implante, protegendo o parafuso do abutment.
  • Cone Morse (CM): É considerado o tipo de conexão mais moderno e eficiente. Apresenta uma união friccional entre o implante e o abutment, o que proporciona uma excelente estabilidade e um selamento hermético, minimizando o risco de infiltração bacteriana e complicações mecânicas. Gehrke et al, 2017

Exemplo Prático: Em um caso de implante unitário na região posterior da mandíbula, onde as forças oclusais são elevadas, a escolha de um implante com conexão Cone Morse pode ser mais adequada para  garantir a estabilidade da prótese e evitar o afrouxamento do parafuso.

Legenda: Configurações de conexão de implante testadas: (a) HE, (b) HI (c) CM

3. Design do Implante: Cilíndrico, Cônico e Híbrido

O design do implante, ou seja, a sua forma e as características da sua superfície, também desempenha um papel importante na osseointegração e na estabilidade primária.

  • Implantes Cilíndricos: Apresentam um corpo reto e são indicados para áreas com osso de boa qualidade e quantidade.
  • Implantes Cônicos: Possuem um corpo que se afunila em direção ao ápice e são ideais para áreas com osso de baixa densidade ou para implantação imediata após a extração dentária.
  • Implantes Híbridos: Combinam características dos implantes cilíndricos e cônicos, oferecendo uma boa estabilidade primária e uma excelente adaptação a diferentes tipos de osso.

Exemplo Prático: Em um caso de implante imediato na região anterior da maxila, onde o osso alveolar costuma ser mais fino e menos denso, a escolha de um implante cônico ou híbrido pode ser mais vantajosa para garantir a estabilidade primária e favorecer a osseointegração.

Legenda: Design de implante. CC = Conexão cônica, IH = hexágono interno.

4. Estabilidade Primária e Secundária: A Importância da Avaliação

A estabilidade primária é a fixação mecânica do implante no osso no momento da sua inserção, enquanto a estabilidade secundária é a fixação biológica que ocorre ao longo do processo de osseointegração. Ambos os tipos de estabilidade são essenciais para o sucesso do tratamento.

  • Estabilidade Primária: Pode ser avaliada através do torque de inserção, que é a força necessária para inserir o implante no osso. Um torque de inserção adequado indica uma boa fixação mecânica e favorece a osseointegração.
  • Estabilidade Secundária: Pode ser avaliada através da análise de frequência de ressonância (RFA), que mede a rigidez da interface implante-osso. A RFA é um método não invasivo que permite monitorar o processo de osseointegração ao longo do tempo.

Exemplo Prático: Em um caso de carga imediata, ou seja, quando a prótese é instalada logo após a inserção do implante, é fundamental que o implante apresente uma alta estabilidade primária para suportar as forças oclusais e evitar o risco de falha.

5. A Influência do Tipo de Osso na Escolha do Implante

A densidade óssea é um fator determinante para o sucesso da implantodontia. Os diferentes tipos de osso (T1, T2, T3 e T4, de acordo com a classificação de Misch) apresentam diferentes características de resistência e vascularização, o que influencia diretamente na osseointegração.

  • Osso Denso (T1 e T2): Permite uma boa estabilidade primária e uma osseointegração rápida e previsível.
  • Osso Poroso (T3 e T4): Apresenta uma menor estabilidade primária e uma osseointegração mais lenta e imprevisível.

Exemplo Prático: Em um caso de osso T4 na região posterior da maxila, a escolha de um implante com design auto-rosqueante e uma técnica cirúrgica que promova a compressão óssea pode ser fundamental para aumentar a estabilidade primária e favorecer a osseointegração.

6. Implicações Clínicas das Diferentes Conexões Implante-Abutment

Um estudo comparativo entre conexões de hexágono interno (HI) e conexões cônicas internas avaliou os resultados após 3 anos de carregamento. Os resultados revelaram que não houve diferenças significativas entre os grupos em relação à perda óssea marginal radiográfica, sangramento gengival à sondagem e complicações. Assim, o tipo de conexão do implante Hexágono Interno não afetou os resultados clínicos, e falhas do implante/prótese. Mihali et al, 2021

Conclusão

A escolha do tipo de implante adequado para cada caso clínico é uma decisão complexa que exige um conhecimento aprofundado das diferentes opções disponíveis e das características individuais de cada paciente. Ao considerar os materiais de fabricação, os tipos de conexão, o design do implante, a estabilidade primária e secundária e o tipo de osso, o implantodontista estará apto a oferecer um tratamento mais previsível, duradouro e satisfatório para o paciente.

Lembre-se que este artigo é apenas um guia introdutório e que a atualização constante e a busca por conhecimento científico são fundamentais para o sucesso na implantodontia.

Espero que este artigo seja útil para o Projeto Odonto e para os odontologistas que buscam aprimorar seus conhecimentos em implantodontia! Se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar.

Referências

ALMEIDA, E. O. et al. Mechanical Testing of Implant-Supported Anterior Crowns with Different Implant/Abutment Connections. The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 28, n. 1, p. 103–108, 2013.

GEHRKE, S. A. et al. Misfit of Three Different Implant-Abutment Connections Before and After Cyclic Load Application: An In Vitro Study. The International Journal of Oral & Maxillofacial Implants, v. 32, n. 4, p. 822–829, 2017.

MIHALI, S. G. et al. Internal Hexagon vs Conical Implant–Abutment Connections: Evaluation of 3-Year Postloading Outcomes. Journal of Oral Implantology, v. 47, n. 6, p. 485–491, 2021.

RAZ, P. et al. Reliability and Correlation of Different Devices for the Evaluation of Primary Implant Stability: An In Vitro Study. Materials, v. 14, n. 19, p. 5537, 2021.

Nota:

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo. Foi desenvolvido com base em evidências científicas para apoiar o aperfeiçoamento profissional de odontologistas. As informações aqui apresentadas não substituem o julgamento clínico, autonomia técnica e científica individual e não possuem finalidade promocional.

Dra. Débora Laís Feijó Pinheiro | CRO 104446
Mestre e Doutoranda em Implantodontia e Periodontia | Cirurgiã Bucomaxilofacial | Professora da APCD | Fundadora da Clínica DPO

Com mais de 10 anos de experiência, Dra. Débora atua com foco em implantes, reabilitação oral e cirurgia bucomaxilofacial. Conduz cirurgias hospitalares de grande porte, reconstruções ósseas, atendimento de trauma em face no Hospital Beneficência Portuguesa de São Caetano do Sul. É mestre e doutoranda em Implantodontia, fundadora da Clínica DPO e professora nos cursos de especialização da APCD. Une prática clínica e formação acadêmica para ensinar técnicas atualizadas e manejo de complicações, com foco em ciência, resultado e aplicabilidade no consultório.

Membro do Comitê Científico da Skillia, plataforma de informação odontológica. Atua na curadoria de referências, redação e validação dos conteúdos técnicos e científicos gerados com apoio de inteligência artificial, garantindo qualidade, veracidade e alinhamento com as melhores práticas clínicas e éticas da odontologia.